16 September 2007 | 19:21
Quinto dia e último: Hals -> Grenå
De volta à Hals, no porto com o banheiro com chuveiro caprichadinho e gratuito a tripulação inteira fez a festa. Todos limpinhos e cheirosos, nós partimos bem cedo para a viagem mais longa – 6 horas no mar – em direção à Grenå, uma cidade a 65km ao norte de Århus.
Meu time nesse dia estava encarregado do convés. Como era a segunda vez que pegávamos o convés, os chefes do time nos deram tarefas mais avançadas e pesadas. Puxar aquelas cordas e erguer as velas é um baita exercício. As mãos então? Parece até tratamento de esfoliação. Minhas mãos não eram mais as mesmas depois de tanto puxa-puxa. Mas esse esforço todo compensa quando vemos as velas enormes se erguerem e o veleiro seguir seu rumo. Aquela gostosa satisfação de trabalho bem feito cumprido.
Por mais que eu tenha tentado me concentrar no mar o enjôo chegou implacável. Pelo menos ele só apareceu depois de 4 horas de viagem. Mas mesmo assim foi um alívio chegar em terra firme.
Em Grenå nós demos uma passeada pelo porto que é muito grande e estava repleto de yatchs alemães e ingleses.
De volta ao veleiro nós jantamos e fizemos uma singela festinha de despedida – já que era a última noite comigo e ruivo a bordo. Cantamos numa rodinha de violão músicas de marinheiros. Para mim foi um momento muito especial. Bateu uma saudade de casa, do Brasil, dos meus irmãos, das nossas rodinhas de violão, de cantar letras engraçadas e rir. Essa noite foi assim. Só que com músicas clássicas dinamarquesas, maioria delas ainda desconhecida para mim.
Uma das músicas que eu gostei mais foi uma descrevendo o estereótipo do marinheiro mulherengo.
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(Otto Brandenburg – Susanne, Birgitte og Hanne)
Alle sømænd er glade for piger
Todo marinheiro gosta de mulheres
men min skat du kan stole på mig.
mas meu amor, você pode confiar em mim
Det er fuldstændigt sandt når jeg siger
é a pura verdade quando eu digo
at mit hjerte kun banker for dig.
que meu coração só bate por você
Og lidt for Susanne, Birgitte og Hanne
e um pouco por Susanne, Birgitte e Hanne
og Tove og Anne og Lizzy og Kiz
e Tove e Anne e Lizzy e Kiz
Foruden Agnete, Elisa og Grethe og Anne-Merethe, og Molly og Liz
além de Agnete, Elisa e Grethe, e Anne-Merethe, e Molly e Liz.
Alle Sømænd tager ud i det fjerne.
Todo marinheiro viaja para longe
Du skal vide at natten når jeg står ved roret og ser på en stjerne
Você precisa saber que à noite quando estou navegando e olho para uma estrela
er jeg altid i tanken hos dig
estou sempre com o pensamento em você
og lidt hos Susanne…
e um pouco em Susanne…
Alle Sømænd er flot tatoveret
Todo marinheiro tem uma bela tatuagem
du skal se når jeg kommer i Havn.
você precisa ver quando eu chegar no porto
på min arm er jeg smukt dekoreret
meu braço é decorado
med et hjerte og der står dit navn
com um coração e o seu nome
Ved siden af Susannes, Birgittes og Hannes
ao lado do de Susanne, de Birgitte e de Hanne
og Toves og Annes og Lizzys og Kiz`
de Tove, de Anne, de Lizzy e de Kiz
Foruden Agnetes, Elisas og Grethes og Anne-Merethes,
Além do de Agnete, de Elisa e de Grethe e de Anne-Merethe
og Mollys og Liz`
e do de Molly e de Liz.
No dia seguinte ruivo e eu pegamos um trem de volta para casa, por motivos que vocês já sabem. O resto do pessoal continuou e fizeram mais duas paradas antes de desembarcarem de vez em Århus.
Essa viagem foi uma surpresa completa. Foi uma oportunidade de passearmos e visitarmos lugares que nunca conheceríamos de outra forma, enquanto aprendíamos muita coisa sobre navegação e veleiros, além de conhecermos muita gente boa. Nós já estamos agitando um encontro em breve para vermos e trocarmos fotos e vídeos da viagem.
Eu nunca mais verei um veleiro ou qualquer barco que seja com os mesmos olhos de antes. Obrigada Krakemut!
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11 September 2007 | 21:59
Quarto dia: Hirsholm -> Hals
No quarto dia, depois da noite boêmia do dia anterior, acordamos a hora que deu, sem pressa. Tomamos café bem tarde e fomos explorar a minúscula ilha.
Hirsholmene é um arquipélogo de pequenas ilhas, em que Hirsholm é a única a ser habitada – por 4 homens solteiros. Além de algumas casas a ilha possui um farol e uma igreja.
Dois dos meninos da nossa tripulação eram geólogos e deram uma bela aula sobre as diferentes pedras no nosso passeio pela ilha. Em 5 minutos nós atravessamos até o outro extremo da ilha andando. Como o vento estava muito forte eu voltei bem rapidinho para o veleiro para me vestir com uma roupa mais quentinha e apropriada. Já o ruivo ignorou o frio, se empolgou e mergulhou junto com os outros meninos.

Por volta de meio dia nós partimos em direção a Hals, no caminho de volta para Århus. Nesse dia meu time estava encarregado da navegação e eu fiquei no timão (volante). Simplesmente adorei a experiência. Foi o único dia que não enjoei nem por um segundo mesmo tendo sido o pior dia de mar agitado. Segundo o capitão, eu não enjoei por ter me concentrado no mar o tempo todo, acompanhando todo o movimento das ondas, o que fez com que meu corpo não fosse pego de surpresa. As ondas grandes dificultaram muito a direção, mas foi uma das melhores experiências que já tive. Me senti como um Amyr Klink da vida.
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4 September 2007 | 21:57
Terceiro dia: Læsø -> Hirsholm
Acordamos dispostos para dar um belo passeio e aproveitar a ilha. Começamos o dia no posto de alguel de bicicletas. Ruivo e eu pegamos essa bicicleta dupla aqui abaixo:
Sempre tive curiosidade em andar em uma. Foi bem gostoso. Não é dificil de adivinhar que quem senta na frente é quem dirige e que só é preciso metade do esforço com duas pessoas na bicicleta. Mas o legal mesmo é como eu estava no banco de trás eu pude aproveitar o passeio para olhar tudo pelo caminho sem me preocupar.
Atravessamos todos juntos de bicicleta a ilha até o outro extremo para visitar uma salina, que hoje funciona também como museu. A salina de Læsø funciona da mesma forma há centenas de anos: por meio de fornos à lenha. Em uma certa época, por volta de 1600, essa salina era a maior produtora de sal da Dinamarca e produzia 36 toneladas três vezes por ano. Para manter o alto nível de produção a salina acabou usando praticamente todas as árvores da ilha como lenha e com isso a produção de sal em Læsø foi proibida por lei, voltando a funcionar há apenas 15 anos atrás. Ainda se percebe na ilha a falta de árvores, já que com a ajuda do vento a areia tomou conta da superfície da ilha, dificultando qualquer tipo de plantação. Meio trágica a história de Læsø, mas a salina é um charme!

Voltamos ao outro lado da ilha e fomos nos preparar para navegar novamente. No terceiro dia meu time estava encarregado da cozinha. Achamos melhor almoçarmos antes de saírmos do porto para não correr o risco de enjoar enquanto comemos. Almoçamos bem rapidinho enquanto decidíamos nosso próximo destino. Todo lugar que visitamos foi decidido no dia. É complicado de planejar os destinos nesse tipo de viagem com antecedência porque tudo depende do tempo que está fazendo, do vento, etc.
Navegamos então por 3 horas até uma pequena ilha chamada Hirsholm. Assim que chegamos a maioria do pessoal foi explorar a ilha enquanto o meu time preparava o jantar. Todos esperavam por um prato típico brasileiro. Eu expliquei a minha total falta de habilidade na área para o meu time que se conformou numa boa.
Jantamos na compania do "dono" da ilha. Um dos 4 moradores fixos de Hirsholm que se alto intitulou chefe da ilha para a gente. O sujeito falava pelos cotovelos com um sotaque carregadíssimo. As inúmeras histórias e fofocas que ele contava funcionavam como um quebra-cabeça para mim pois eu precisava deduzir os buracos que eu não entendia. Apesar da dificuldade para entendê-lo, ele nos garantiu uma noite muito divertida.
Fomos dormir beeem tarde totalmente esgotados e cheios de vinho.
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2 September 2007 | 13:07
Segundo dia: [Hals -> Læsø
Meu time estava encarregado do convés no segundo dia. Depois do café da manhã tivemos uma breve reunião para a apresentação das diferentes velas, cordas e nós. Trabalhar no convés é a tarefa mais braçal e ativa, pois é o time do convés que sobe e desce as velas do veleiro. É um tal de junta gente e puxa corda. Essas velas são pesadas. E haja técnicas de como segurar nas cordas, de como abrir as velas e como embalá-las. Tudo feito com muito cuidado e capricho.

Como o ruivo estava no time do convés no dia anterior e eu tinha observado tudinho, eu sabia mais ou menos o que acontecia. Mas dar os diferentes nós nas cordas não é uma tarefa lá muito simples. E olha que aprendemos 4 nós diferentes e "só" usávamos mesmo dois! O segundo dia também estava uma perfeição, mas em compensação ventou um tanto mais, o que é sempre bom já que estávamos num veleiro e dependíamos disso. Nisso minha tiara entrou em cena para domar meus cabelos esvoaçantes. Depois que as velas já estavam erguidas e já estavamos em alto mar, sem muita mudança de direção do vento, nosso time pôde vagabundiar e curtir a paisagem.

Quando nos distanciamos do porto e o mar ficou bem agitado começou a parte desagradável: o enjôo. Ruivo e eu, marinheiros de primeira viagem, fomos vencidos pelo mar. Depois que descobri que deitar ajuda eu não queria mais saber de paisagem alguma. Fiquei alternando entre o convés (superfície dura, mas na compania da tchurma) e o sofá da cabine (superfície fofinha, mas sozinha). 3 horas nesse vai e volta até que finalmente chegamos em Læsø, uma ilha muito charmosinha.
Como o cansaço era geral não exploramos a ilha no mesmo dia da chegada. Nos contivemos em repetir o mesmo ritual do dia anterior: banho, janta, muito papo furado e cama. Descançar bastante porque o dia seguinte prometia.
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31 August 2007 | 19:28
Vou começar com uma errata: não era um navio, como escrevi há 4 posts atrás, mas um veleiro. Minha confusão se deu ao fato de todo mundo se referir coloquialmente a ele como skib, que significa navio.
Antes de começar o resuminho por dias, preciso explicar também o conceito do passeio. Krakemut, que é o nome do passeio, acontece todo ano na mesma semana de agosto, que é quando o mesmo grupinho de 3-4 pessoas tem o veleiro reservado pra eles. São pessoas com experiência em navegação, com cursos e certificados. Eles tiveram a idéia de fazer esse passeio anual, formando um grupo grande com pessoas conhecidas ou não e ensiná-los os pontos básicos de se navegar num veleiro. Eles separam a tripulação em 3 times, cada time é encarregado de uma atividade diferente por dia. As atividades também são 3: navegação, convés e cozinha. É uma ótima maneira para eles de fazer o que gostam, praticando o conhecimento que adquiriram com uma certa frequência e ainda conhecer pessoas. Mas tudo isso com a presença e supervisão do Capitão e dono do veleiro.
Primeiro dia: [Århus -> Aalborg ->Hals
Acordamos cedo e pegamos um trem em direção a Aalborg, norte de Jylland. Depois de duas horas de viagem de trem chegamos no porto de Aalborg, onde o veleiro de madeira de 1903 chamado Bona Gratia nos esperava. Tomamos café da manhã com os outro 13 tripulantes e fomos fazer compras para o nosso mantimento num supermercado próximo. Eu fui encarregada das verduras. Nunca comprei tanta verdura na minha vida! Um carrinho cheio!
O veleiro tem 20 metros de comprimento e 20 de altura. Possui uma pequena cabine de onde o capitão naviga, com todos os mapas de oceanos, mares, portos e cais na Dinamarca e Escandinávia. Assim que cheguei na cabine notei uma lista pregada na parede com o nome de todos divididos nos tais times. Ruivo e eu estávamos (sabiamente) em times diferentes. Começamos a jornada com uma introdução às regras, apresentadas pelo Capitão. Ele, um senhor de meia idade super sereno e objetivo, contou a história do veleiro e explicou as principais medidas de segurança.
No primeiro dia meu time estava encarregado da navegação. Os dois cabeças do meu time explicaram rapidamente como ler um mapa, observando os caminhos que o veleiro pode ou não pode passar, os sinais, etc. 3 dos 5 integrantes do meu time se revezaram no timão (o volante do veleiro). Os outros 2, incluindo eu, ficaram atentos aos mapas e à bússula. O mapa em questão era o de Kattegat, que é o estreito entre a Dinamarca e a Suécia e a região naútica que nosso veleiro exploraria.
Navegamos por algumas horas. O dia estava lindo, céu azulzão (como nessa foto acima) e mar calmo. Mas como o vento não ajudava muito, decidimos parar e pernoitar no porto de uma cidadezinha chamada Hals.
Como a brisa do mar deixa o cabelo uma beleza, lá fui eu imediatamente à procura de um banheiro no porto de Hals. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar um banheiro bonitinho e com água de graça? Foi o único porto em que a água era gratuita.
Jantamos, contamos histórias de marinheiro e fomos dormir lá para a meia-noite nas camas apertadinhas, mas aconchegantes do veleiro.
Já tive uma impressão bem positiva do passeio depois do primeiro dia. Eu devo admitir que achei que seria bem mais duro o trabalho no veleiro. Mas estava sendo muito interessante e gostoso aprender tudo aquilo.
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Será um post por dia, porque ninguém irá aguentar ler tudo de uma vez só.
Escrito por Cat em Dinamarca, krakemuttur, viagens |
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